domingo, 23 de junho de 2019

Trabalho final Arthur Nóbrega


                                               UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA














Distante da casa do coringa: Uma analise do texto terrenos












                    Arthur Travasssos de Arruda Nóbrega






















Sumário




1 Apresentação
2 Distanciamento
2.1 Distanciamento utilizado na cena 06
2.2 Distanciamento no restante da peça
3 Coringamento
4 Conclusão
5 Bibliografia

Apresentação


Meu objetivo nesse trabalho é analisar o texto TERRENOS1 da Cia. Teatro Documentário2Tendo como base o conhecimento adquirido em sala tentarei trazer um texto didático e não cansativo. Tendo como ferramentas gráficos, tabelas e imagens esse trabalho vai trazer uma breve analise do distanciamento desenvolvido por Brecht e o coringamento elaborado por Boal.
Com foco na peça e nas formas utilizadas de fazer cada coisa esse texto promete trazer muito conteúdo para ser analisado.

Distanciamento
Nesse texto podemos observar a utilização do método do estranhamento desenvolvido por Eugen Bertholt Friedrich Brecht3esse procedimento cênico é conhecido por não permitir que o publico crie laços afetivos com os personagens em cena e que mantenham durante o espetáculo um olhar realista, que se afaste da ficção criada no palco. Como Brecht disse em Estudos sobre teatro4
O objetivo dessas tentativas consistia em se efetuar a representação de tal modo que fosse impossível ao espectador meter-se na pele das personagens da peça. A aceitação ou a recusa das palavras ou das ações das personagens devia efetuar-se no domínio dó consciente do espectador, e não, como até esse momento, no domínio do seu subconsciente.”
Sendo assim o método é bastante utilizado na peça em questão por pedir a utilização dessa técnica. A peça em si traz um tema de denúncia e a plateia por sua vez tem que ter um olha mais analítico da situação sem se apegar a nenhum lado. Deste modo o docudrama5 em si traz documentos reais e falas verídicas que os próprios atores tiveram com a entrevistada, utilizam ainda de trechos de gravações com a mesma contando fatos vivenciados.
Sabendo que brecht tem como objetivo criar essa barreira afetiva com os espectadores o texto traz muitos outros elementos de distanciamento e formas de brincar com esses movimentos, na cena seis por exemplo que mostra uma parte com pouca interpretação e mais leitura de documentos. Entretanto no restante da peça podemos observar outros tipos de estranhamento.
Contudo o distanciamento brechtiniano é em alguns momentos dissolvido em uma fala que pede personagem e distancia, ficando difícil assim a identificação de quem é o porta-voz daquele bifão, como na cena dois, pagina cinco:
Mãe, manhê! Põe a gente no chão! Você está me segurando só como Cidinha. Mãe, com uma mão só, na foto. Ai como Anite eu estou de pé do seu lado, como Dirce estou sentada na frente da Anita, a Cidinha também, estou na frente de pé com o papai, e como Afonso estou na frente do papai e do lado da nena. Do lado da Nena, mãe! Só que está todo mundo bem sério aqui na foto. Isso! Está perfeito. Clique!”
Esse procedimento é tido como muitos uma forma de fazer do teatro um canto de conhecimento político e social. Trazendo muitas vezes fatos que acontecem com a sociedade atual usando de personagens, de falas com impacto sobre a narrativa ou de acontecimentos já vividos por alguém que a história cita. Abaixo tabela com falas e meios para atingir o público-alvo:
FALAS
MEIOS
A Francisca me contou que na adolescência, A Anita e o Afonso foram trabalhar com o João, na fábrica”- Crianças
Personagem
Existem pessoas que calam com o grito; e outras, com afago... ”- Patrão
Falas de impacto sobre a narrativa
Maíra, a prostituta que conheci na estação da Luz, não sai de casa sem passar batom. Ela me contou que veio para São Paulo, por que soube de uma proposta de trabalho através do irmão. Maíra” –Francisca
História já vivida
2.1 Distanciamento na cena 06


Entrando na cena seis temos o distanciamento total dos personagens, para um melhor entendimento de toda a historia, com a utilização de documentos “Certidão de óbito do João. Declarante: Vicente Lopes”- Crianças esse ato se da de um modo mais elaborado com comprovantes. A utilização desses documentos em cena leva veracidade e embasamento para o palco, fazendo da denúncia o foco principal da sexta parte.
Crianças: Causa da morte: infarto do miocárdio, doença cardiopatia hipertensiva.
João: Francisca sempre disse que João era muito saudável
Crianças: Residente onde faleceu
Francisca: O joão não morreu em casa
Crianças: Endereço do falecimento: Rua Costa Aguiar, numero 875
Francisca: Esse não é o endereço onde francisca disse que viveu com João. Esse é o endereço da fábrica
Crianças: Troca para panfleto da Rádios Pontet. Esse é o anuncio da fábrica, de 20 anos depois. Endereço: Rua Costa Aguiar”
Ainda tendo como foco essa cena podemos analisar o uso dos atores em paralelo com seus personagens, usando de características físicas reais para a assemelhação com seu personagem, tendo como maior objetivo transformar aqueles seres “fictícios em pessoas reais.
Patrão: É impressionante a semelhança física dele com João.
Francisca: Demais.
Crianças: É mesmo.
João: Imagina.
Francisca: As orelhas grandes.
João: Minhas entradas são maiores do que as dele.
Crianças: O cabelo é escuro, igualzinho.
Francisca: O rosto, o formato do rosto…
João: Eu tenho 28. O João tinha quarenta e poucos. Os braços mais curtos que o meu.”


(Imagem 1)Momento onde usam de uma foto antiga de João para comparar com o Ator Márcio Rossi, cujo interpreta o falecido.
Características
Personagens e Atores
Esse cabelinho batidinho, curtinho.”
Francisca/Carolina Angrisani
Tem uma alma infantil, uma agilidade”
Crianças/Natália Lemos
Se imaginar o patrão, o patrão é um cara alto”
Patrão/Gustavo Curado


Entretanto essas características não são as únicas, o sexto ato vem com uma narrativa distanciada, porem trazendo à utilização da atuação voltada para uma desconstrução do distanciamento, fazendo assim das falas distanciadas as falas dos personagens que representam, ou seja, os atores usam de um jogo de falas verídicas e não para um mostrar um contraste entre ficção e realidade.
““Patão: É, Francisca, eu não sei nem como dizer, foi tudo muito rápido... O João caiu na Fábrica, foi uma morte santa. Você não se preocupe com nada, o patrão está tomando conta de tudo.
João: Talvez vocês imaginem que tenha sido assim, mas não. O Vicente deu a notícia de maneira seca, direta.
Patrão: Volta.
Francisca: O que aconteceu ao meu marido?
Patrão: O joão morreu.
Francisca: é mentira, é 1° de abril ”
Fechando a cena temos falas que trazem um contexto histórico para o ato, dando uma ideia de tempo e de vivência essas falas tem como objetivo o enriquecimento da passagem de tempo do docudrama e finalização da historia contada.
Francisca: Em seu 1,53m, a Francisca tem o seu ventre de mãe operária, operária-mãe. Tem um peito e um coração dentro dele. Tem seus braços mais curtos que os meus. Francisca percorreu mais ou menos 300 quilômetros do interior à capital. Depois disso, tornou-se viúva, operária de uma fabrica de linhas de costuras, reencontrou o algodão. Casou as filhas e o filho, teve mais de 25 netos, 10 bisnetos e 3 tataranetos. Francisca nunca saiu desse estado.
Patrão cobre Francisca com manto-certidão-de-óbito
Patrão: Francisca não sabia o que estava por vir. Francisca viveu o Brasil Novo, o plano nacional contra o Imperialismo, e a Ditadura militar. Assistiu pela televisão a queda do muro de Berlim, e ouviu a direita comemorar ao som de Pink Floyd. Depois, perdeu a poupança no plano Collor e, em seguida, viveu a felicidade dos créditos. Está inserida na chamada singularidade da pós-modernidade. Observou de longe as manifestações de julho de 2013 e viu a Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Nunca sozinha e em silêncio. Mesmo sem saber exatamente sobre seu paradeiro, a figura do Patrão e o som da prensa sempre lhe fizeram companhia.”


(Imagem 2)Francisca coberta com o manto-certidão-de-óbito

2.2 distanciamento no restante da peça


Nas outras cenas do texto podemos observar várias funções do distanciamento, como musicas, partes narradas, informações dadas para o entendimento da história, contexto histórico e comparação. Abaixo podemos observar uma tabela com alguns exemplos de falas e suas formas perante o texto.
FALAS
FUNÇÕES
A família chegou em São Paulo, na Estação da Luz, e o tio Vicente já estava esperando com um táxi”- Patrão
Narração
A Francisca não me disse se gostaria de ter trabalhado menos para ficar mais tempo com as crianças”- Francisca
Informar
Deixe-me ir/Preciso andar/Vou por aí a procurar/Rir pra não chorar”- João
Música
Minhas mão são limpas, macias e não possuem calos. Ao contrário das mãos de Gilberto..”- Patrão
Comparação
João nunca ouviu “Preciso me encontrar” na voz de Cartola. João não viveu o Brasil Novo… Nem assistiu à Copa do mundo no Brasil, em 2014. João não viu e não verá essa encenação” - Francisca
Contexto Histórico
O distanciamento narrativo se da em vários momentos por muitas falas explicativas do que está se passando em cena. Tendo como função explicativa esse tipo de distanciamento é utilizado pelos atores um total de dezessete vezes ao decorrer da peça. Tendo sua maior aparição do fim da parte três inicio da quarta essa ferramenta narra a chegada da família em São Paulo.
João: Eu costumo ver o dia amanhecendo ou por que acordei cedo ou por que eu tive insônia. Às vezes vezes eu ouço o vento rasgando a janela, ou a chave trancando a porta. Eu saio de casa, eu passo pela a rua e ouço conversas pela metade, ouço pessoas com passos acelerados. Difícil mesmo é escutar meu próprio passo. Será que o João em sua vida teve a chance de ouvir seus passos? O som da terra ao pisar no chão?Possivelmente ele ouviu o convite de Vicente, pensou e partiu. Talvez não tão rápido, como foi apresentado, podem ter tido algumas diferenças. Com certeza ele percebeu as crianças arrumando as coisas junto com Francisca, ou as brincadeiras, afinal de contas, eram crianças. A casa talvez fosse assim, quase silenciosa. E no silêncio, ele pode ter escutado.”
A fala para informação também se fez bem presente no docudrama, com o foco em informações extras para o enriquecimento da peça esse mecanismo foi utilizado 31 vezes ao decorrer da história. Com a utilização de documentos o ato 6 tem em sua base o distanciamento informativo, como conclusão da trama e resolução de pontas soltas.
Crianças: A Cidinha, que hoje tem 68 anos, contou para a gente que quando as crianças receberam a notícia do falecimento do pai, foi um grande tumulto. Por achar essa imagem muito dramática, eu optei por não representar.”
A musicalidade na peça se da por distanciamentos pontuais e representativos, para ilustração da morte de João, com a chegada do tio das Crianças e com a insinuação de que Francisca perdeu uma criança. Essa musicalidade traz para o docudrama uma outra atmosfera com o poder de insinuação.


Crianças: Pum pá, pum-pá, Pum pá, pum-pá
Francisca: Pode entrar
Patrão: O futuro aqui chegou
João: Com ar de doutor chegou meu cunhado
ele trouxe um convite inusitado
Patrão: Bora pra São Paulo terra da garoa
Francisca: É isso ai, criançada, vamos ter uma vida boa
Crianças: É João, trabalhar pra caralho, e ganhar
Todos: Uma merda de salário”

(Imagem 3)Parte cantada, todos em cena.


Abaixo temos um gráfico para facilitar à visualização da aparição do distanciamento nas cenas e como cada um foi utilizado, podemos observar que existe predominância da informação e da narração:

(Gráfico 1)
Coringamento


A técnica do coringamento6 foi desenvolvida por Augusto Boal7 e é responsável por dá a um ator mais de um personagem para a interpretação, utilizando de figurino ou apenas do aviso para a troca de papel o ator pode transitar entre esses personagens. E como pude observar no docudrama sabemos que o personagem Crianças e Patrão praticam desse coringamento.
Crianças: Plantação. Grande propriedade agrícola. Criança, pequeno ser humano. Pequeno latifúndio. Algodão. A Cidinha no cabelo do pai, o Afonso pega no passarinho, a Dirce na árvore, a Nena palhaça, a Anita no rio. Eu sou a Anita, o Afonso, a Nena, a Dirce e a Cidinha. Nós somos cinco, e não queríamos ter esquecido a boneca.”
Diferente da metodologia do estranhamento de Brecht o coringar tem um trabalho direto com os personagens e com a historia que contam. Tanto que na cena três, página 8, tem um dialogo apenas com a personagem Dirce e na mesma cena o personagem Patrão esta de Vicente, irmão de Francisca.
(Imagens 4, 5, 6, 7 e 8)

Como podemos observar o personagem Crianças teve 5 jeitos diferentes de abraçar, isso mostra mais de uma personalidades diferentes e corpos diferentes. Isso é o coringamento, a capacidade de trabalhar com vários personagens com o mesmo ator. A parte ruim desse procedimento é a falta do movimento no palco, uma cena só é movimentada com a entrada e saída de atores no palco, deixando eles no palco porém com personalidades diferentes é retirar esse movimento e substituir por ações que por consequência trazem um ritmo acelerado, por causa da troca de figurino que tem que ser rápido estando em cena.
Outro personagem que também usa dessa ferramenta é o Patrão, interpretando o tio que convence a família a ir para São Paulo, esse personagem não tem trocas simultâneas, porém sua característica foi o aviso da troca de personagem, diferente das Crianças que tem sua troca em cena o ator espera sair de foco para tocar de figurino.
Patrão: Agora eu serei o tio Vicente, Irmão de Francisca, cunhado de João, tio das cinco crianças e um excelente funcionário.”
Patrão
Tio Vicente

(Imagem 9)                                                                (Imagem 10)
Só de observar o figurino já podemos identificar diferenças, porém não é só as roupas que diferem pessoas e sim suas personalidades, o personagem Patrão traz uma energia mais séria e pesada para o palco, levando em conta todo o enredo é de se esperar esse tipo de personalidade caricata de um patão. Enquanto Vicente é apenas mais alguém tentando crescer no estado Paulista. Abaixo um gráfico com o numero de trocas efetuadas no docudrama:
(Gráfico 2)
Com a ilustração do gráfico podemos identificar que o personagem Crianças se da em constante troca de personalidades, diferente do Patrão que chega momentos que ele não muda. Contudo mesmo sem mudanças de um personagem podemos ver que o ritmo se da mais rápido nas partes um e dois, fazendo do inicio da peça algo ágil.
Conclusão


Pude concluir com essa analise que o texto TERRENOS tem duas características bem marcantes, uma sendo o distanciamento de Brecht, responsável por diferenciar ficção da realidade o estranhamento cria uma barreira contra e empatia para que o publico não se apegue aquilo que se passa no palco.
Contudo o coringamento desenvolvido por Boal traz para o palco algo ficcional e ilustrativo, para prender a atenção dos espectadores. Essa técnica foi utilizada mais como economia de tempo, a entrada e saída de atores gera movimento porém o ritmo diminuí em cena. Tendo um personagem fazendo vários traz aquela ideia de que não esta perdendo tempo com trocas desnecessárias.


Bibliografia



BRECHT, BertoltEstudos sobre o teatro. Ed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1964.


1 Texto escrito pela Cia. Teatro Documentário, conta a historia de uma família que foi morar em São Paulo, texto completo se encontra em anexo.
2 Cia. Teatro Documentário é uma companhia de teatro de São Paulo, com foco em peças de caráter documental, para mais informações desse grupo segue link: http://ciateatrodocumentario.com.br/
3 Dramaturgo alemão do seculo XX, desenvolveu a técnica do estranhamento e começou a disseminar uma vertente do teatro hoje e dia conhecida como teatro documentário.
4 Estudos sobre teatro é um livro escrito por Brecht e traduzido por Fiama Pais Brandão, nesse livro Brecht faz varis analises sobres métodos de fazer teatro, contendo trechos sobre o estranhamento.
5 Docudrama é o nome dado as dramaturgias de caráter documentário.
6 Papel de vários personagens com apenas um ator fazendo eles.
7 Dramaturgo brasileiro, deu origem ao teatro do oprimido e seu auge se deu no seculo XX

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